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História da cana-de-açúcar na colonização do Brasil

História da cana-de-açúcar na colonização do Brasil

A cana-de-açúcar é originária da distante Papua (Nova Guiné), onde já era conhecida há cerca de 12.000 anos, e depois cultivada na Ásia Meridional, foi à cana-de-açúcar (Saccharum officinarum L.) trazida pelos árabes da África para a Sicília e desta para a costa Sul da Espanha.

Entre os portugueses o seu cultivo da cana-de-açúcar tem início no Algarve, ao tempo de D. João I (1404), sendo depois transportada pelo Infante D. Henrique para Ilha da Madeira, que a transformou no grande propulsor do progresso do mundo colonial de então.

De produto vendido nas boticas européias no século XIV, integrando a cozinha árabe que por três séculos dominou a Península Ibérica e tentou desenvolver o plantio da cana-de-açúcar em Granada, o açúcar chegou a Portugal “como remédio e regalo, parcimonioso em gente rica”.

Data de 1425 o plantio das primeiras mudas de cana-de-açúcar na ilha da Madeira, trazidas da Sicília por ordem do infante D. Henrique e plantadas no centro do Funchal, nas cercanias do Terreiro da Sé.

A cultura da cana-de-açúcar  logo se desenvolveu e, em 1455, a produção era estimada em 6000 arrobas. Em 1498, dois anos antes da descoberta do Brasil, Dom Manuel, Rei de Portugal, já fixava a exportação das ilhas – Madeira, Açores, São Tomé e Cabo Verde – em 120.000 arrobas.

 

Naquele final de século XV, a doçaria em Portugal já se encontrava centenária, com os seus bolos de mel, o alfenim, a alféloa, originários da cozinha árabe.

É desta época a representação das Cortes de Évora contra às alfeloeiras que, entre outros danos, faziam “os meninos chorar e pedir a seus pais mais dinheiro para comprarem dela dita alféloa”; daí a proibição de Dom Manuel, punindo a transgressão com pena de prisão e açoite, do comércio desse doce a ser exercido por homens.

Divisão das Capitanias

Divisão das Capitanias

O açúcar produzido na ilha da Madeira se tornara conhecido na Europa de então.

Sendo conhecido o episódio em que capitão Simão Gonçalves da Câmara, madeirense bem conhecido por seus rompantes de liberalidade, enviou como presente ao Papa Leão X (1513-1521) uma escultura em alfenim com todos os cardeais do Sacro Colégio em tamanho natural.

Muito embora introduzida oficialmente no Brasil por Martin Afonso de Souza, em 1532, a cana-de-açúcar já tomava conta da paisagem pernambucana desde os primórdios da colonização, ainda ao tempo da feitoria de Cristóvão Jacques, no Canal de Itamaracá (1516).

Em 1526, já figura na Alfândega de Lisboa o pagamento de direitos sobre o açúcar proveniente de Pernambuco, segundo informação revelada pela primeira vez por F. A. Varnhagen.

Casa de Engenho - Brasil Colonial.

Casa de Engenho – Brasil Colonial.

Com a implantação no Brasil do sistema das capitanias hereditárias, o território da capitania de Pernambuco foi doado a Duarte Coelho Pereira, que havia prestado à coroa relevantes serviços na conquista das Índias.

O território que constituiu a primitiva Capitania de Pernambuco foi estabelecido quando da doação feita por D. João III a Duarte Coelho Pereira, em l0 de março de 1534 e compreendia:

Sessenta léguas de terra… as quais começarão no Rio São Francisco […] e acabarão no rio que cerca em redondo toda Ilha de Itamaracá, ao qual ora novamente ponho nome Rio Santa Cruz … e ficará com o dito Duarte Coelho a terra da banda Sul, e o dito rio onde Cristóvão Jacques fez a primeira casa de minha feitoria e a cinqüenta passos da dita casa da feitoria pelo rio adentro ao longo da praia se porá um padrão de minhas armas, e do dito padrão se lançará uma linha ao Oeste pela terra firme adentro e a terra da dita linha para o Sul será do dito Duarte Coelho, e do dito padrão pelo rio abaixo para a barra e mar, ficará assim mesmo com ele Duarte Coelho a metade do dito rio de Santa Cruz para a banda do Sul e assim entrará na dita terra e demarcação dela todo o dito Rio de São Francisco e a metade do Rio de Santa Cruz pela demarcação sobredita, pelos quais rios ele dará serventia aos vizinhos dele, de uma parte e da outra, e havendo na fronteira da dita demarcação algumas ilhas, hei por bem que sejam do dito Duarte Coelho, e anexar a esta sua capitania sendo as tais ilhas até dez léguas ao mar na frontaria da dita demarcação pela linha Leste, a qual linha se estenderá do meio da barra do dito Rio de Santa Cruz, cortando de largo ao longo da costa, e entrarão na mesma largura pelo sertão e terra firme adentro, tanto, quanto poderem entrar e for de minha conquista…

A metade da barra Sul do canal de Itamaracá – que o rei D. João III denominou de “rio” de Santa Cruz –, até cinqüenta passos além do local onde existira a primitiva feitoria de Cristóvão Jacques, demarcava o limite Norte de Pernambuco; ao Sul, o limite da capitania era o Rio São Francisco, em toda sua largura e extensão, incluindo todas as suas ilhas da foz até a sua nascente.

Assim o território da Capitania de Pernambuco infletia para o Sudoeste, a acompanhar o curso do rio, alcançando suas nascentes no hoje Estado das Minas Gerais.

As Capitanias Hereditárias

As Capitanias Hereditárias

Ao Norte o Rei estabeleceu o traçado de uma linha para o Oeste, por terra adentro, até os limites da sua conquista; ou seja, os definidos pelo Tratado de Tordesilhas (1493), isto é, as terras situadas além das 370 léguas ao Oeste das ilhas do Cabo Verde.

Estavam estabelecidas, grosso modo, as fronteiras da capitania duartina, cujas sessenta léguas de testada abrangiam todo o atual Estado das Alagoas e terminavam ao Sul, no Rio São Francisco, fazendo fronteira com o atual Estado das Minas Gerais.

Graças à posse deste importante curso d’água, em toda sua extensão e largura, o território de Pernambuco crescia na orientação Sudoeste, ultrapassando na sua largura em muito as sessenta léguas estabelecidas na carta de doação.

Na observação de F. A. Varnhagen possuía a capitania de Duarte Coelho doze mil léguas quadradas, constituindo-se na maior área territorial entre todas que foram distribuídas pelo Rei D. João III.

Chegando à Feitoria de Pernambuco em 9 de março de 1535, Duarte Coelho fez-se acompanhar de sua mulher, Brites de Albuquerque, do seu cunhado Jerônimo de Albuquerque, e de algumas famílias do norte de Portugal que vinham tentar a sorte no desenvolvimento da agroindústria canavieira.

Coube a esse “fundador de nação” a implantação, de forma sistemática, das bases da agroindústria açucareira. Trouxe ele novas técnicas de fabrico do açúcar com a vinda dos engenhos e dos mestres especializados da ilha da Madeira e, sobretudo, da importação de capital judeu para o financiamento do empreendimento.

O primeiro engenho de açúcar de Pernambuco, o Engenho Velho de Beberibe, foi erguido logo nos primeiros anos da colonização por Jerônimo de Albuquerque, sob a invocação de Nossa Senhora da Ajuda.

Era este empreendimento, o primeiro das centenas que se seguiram, dando início a uma economia com base na cultura da cana-de-açúcar, fundada pelo donatário Duarte Coelho, que, para isso, mandou buscar mestres-de-açúcar na ilha da Madeira, importando a mão de obra escrava da África, de onde vieram os primeiros negros da Guiné.

A cultura da cana-de-açúcar veio dar novas cores, costumes, cheiros e sabores à paisagem, contribuindo assim para o desenvolvimento e sobrepujança da terra pernambucana, cujos primórdios eram assim vistos por Oliveira Lima:

A capitania de Duarte Coelho foi a que mais cedo prosperou, conquanto à custa de muito gasto e de muito esforço, porque, além das pouco vulgares qualidades pessoais do donatário, a terra recomendava-se pela sua excelência. Clima quente, porém temperado pelas suaves virações de terra e mar, tão faladas de Piso, o sábio médico de Maurício de Nassau. Chuvas abundantes e regulares em toda a zona aquém do sertão, refrescando os campos, engrossando os rios e evitando as secas. Terreno acidentado sem demasias, descendo gradualmente dos platôs ou tabuleiros do interior para as matas frondosas, nas quais a pujança não sobrepuja a beleza, e para as várzeas fertilíssimas banhadas por muitos rios, e expirando nos mangues ou alagados do mar.

Em Pernambuco, a “terra garanhona do massapê“, para usar a expressão de Gilberto Freyre, foi o solo ideal para a fundação dessa cultura que por mais de quatro séculos domina a economia de toda uma região.

Com os seus engenhos espalhados pelas várzeas dos rios Capibaribe, Beberibe, Jaboatão e Una, a Capitania Duartina viu florescer a civilização do açúcar.

Para o primeiro donatário, a Nova Lusitânia, como ele insistia em denominar Pernambuco, jamais seria uma colônia simplesmente extrativista, como queriam as ordens de Lisboa na primeira metade do século XVI, mas uma terra de plantação, embrião do que veio a ser a civilização do açúcar.

Foi este produto o suporte econômico da grande marcha civilizadora de Pernambuco, responsável pela colonização de todo o Norte do Brasil.

Foi o açúcar o grande impulsionador econômico dessas conquistas; açúcar que, em 1583, era produzido por 66 engenhos.

A situação econômica da capitania, no início do século XVII era, no dizer do frei Vicente do Salvador (c. 1564 – c. 1636-39), das melhores com o porto mais freqüentado do Brasil e uma renda de vinte mil cruzados, “afora o pau-brasil e dos direitos sobre o açúcar”.

Graças aos lucros obtidos com o açúcar, os de Pernambuco realizaram a colonização da Paraíba e do Rio Grande do Norte, estendendo sua conquista ao Ceará e ao Pará, sendo sua participação decisiva na incorporação do Maranhão ao território nacional.

Foi um pernambucano, por sua participação no esforço da incorporação do Maranhão, cujo território era ocupado pelos franceses, que orgulhosamente acresceu este topônimo ao seu nome de família, prática que se estendeu por todos os seus descendentes.

Refiro-me a Jerônimo de Albuquerque que, nascido em Olinda em 1548, filho do capitão Jerônimo de Albuquerque, cunhado do primeiro donatário, com D. Maria do Espírito Santo, índia da tribo dos Tabaiares, veio a conquistar o Maranhão aos franceses, então comandados pelo Monsieur de la Ravardière, Daniel de la Touche.

Por assinatura do termo de capitulação, em 2 de novembro de 1615, ao apor o seu nome, Jerônimo de Albuquerque acrescentou o topônimo Maranhão.

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