História da introdução dos azulejos portugueses no Brasil

Azulejos em São Luís MA
Azulejos em São Luís MA

De acordo com Simões (1980), as principais características que diferenciam os azulejos portugueses nos primeiros 25 anos do século XVII como monumentalidade, adequação à arquitetura e modernidade.

O azulejo portugues chegou ao Brasil em sincronia com as demais artes e seguiu o mesmo processo de aculturação existente em Portugal.

Ou seja, para o Brasil foi transportado o mesmo gosto, a mesma técnica e os mesmos materiais de Portugal.

Durante o século XVII, a azulejaria se desenvolveu nos dois países e atingiu altos níveis decorativos.

No Brasil, os revestimentos com azulejos de padrões em policromia, formando tapetes enquadrados por cercaduras, não atingiram a monumentalidade de exemplos portugueses, mas foram bem representados em Pernambuco e Bahia.

Os gostos, modas, costumes, enfim, quase tudo o que a Corte produzia era trazido ao mesmo tempo para a Colônia.

Aconteceu o mesmo com a azulejaria.

No final do século XVII, a cerâmica policrômica no estilo italiano perdeu lugar para a novidade da porcelana azul, importada da China, e então copiada na Holanda, Inglaterra e na própria Itália.

Os azulejos portugueses passaram a reproduzir em dois tons de azul os velhos padrões policrômicos.

Para o Brasil eram mandados os melhores exemplares desse gênero, como por exemplo, os azulejos de padrão azul que forram o interior da igreja de Nossa Senhora dos Prazeres nos Montes Guararapes, em Pernambuco (SIMÕES, 1980).

Azulejos portugueses de 13,5x13,5cm, no módulo 4x4, Recife
Azulejos portugueses de 13,5×13,5cm, no módulo 4×4, Recife

Tecnicamente, essa mudança para monocromia azul representou uma simplificação dos processos produtivos.

O emprego do cobalto, que produz as tonalidades azuis, era mais fácil que as outras cores, como também era melhor o seu comportamento nas operações de queima.

No final do século XVII existiram, ao mesmo tempo, azulejos em policromia e monocromia, porém, estes últimos ganharam popularidade.

Durante esse século, os azulejos mais utilizados nos interiores de templos e casas nobres foram as grandes composições de tapete, conseguidas com a repetição da padronagem em policromia (elemento).

Eram usados tanto esquemas de quatro azulejos (2×2), quanto esquemas de dezesseis (4×4) a trinta e seis (6×6) azulejos.

Azulejos padrão e cercadura franceses, Recife, séc. XIX
Azulejos padrão e cercadura franceses, Recife, séc. XIX

Os padrões eram definidos pelo módulo da repetição. Por exemplo, um padrão 2×2/1, significava repetição de quatro azulejos a um elemento.

Para revestir superfícies maiores, passou-se a fabricar e utilizar padrões de repetições mais complexos como: 4×4/2, 4×4/3, 4×4/4, 6×6/8 até 12×12/14.

Os tapetes então eram limitados por frisos (frações retangulares de azulejos), cercaduras (azulejo total) ou barras (dois azulejos sobrepostos). Esses elementos acessórios dos tapetes tinham cantos próprios para dar continuidade ornamental aos ângulos de ligação (SIMÕES, 1980).

Bardi (1980) explica que a aplicação em forma de tapete podia também ser composta de figuras, onde era preparado o cartão quadriculado e os artistas transferiam o desenho para os azulejos.

Nos temas figurativos apareciam as vidas dos santos, cenas de misericórdia, temas civis, marítimos, mitológicos e episódios da vida doméstica.

Durante a ocupação dos holandeses em Pernambuco (1630 a 1654) vieram azulejos da Holanda para os palácios construídos na época do príncipe Nassau.

Azulejos e frisos portugueses, inferior no módulo 4x4, e superior do tipo figura avulsa, Recife, séc. XIX..
Azulejos e frisos portugueses, inferior no módulo 4×4, e superior do tipo figura avulsa, Recife, séc. XIX..

Geralmente, as peças tinham uma figura central dentro de algum tipo de friso, ou apenas uma figura popular e os cantos contendo desenhos de aranhiços, labirintos chineses, cabeças de boi ou flores-de-lis.

As peças não eram tão bem acabadas como as portuguesas e apresentavam dimensões menores (CAVALCANTI, 2002).

É interessante observar que já neste século (XVII), em Setúbal, Portugal, os revestimentos parietais começaram a mostrar preocupação com a escala.

Quando o azulejo estava mais próximo da visão, o enxadrezado era menor.

Na parte mais elevada do painel, era aumentada a escala do enxadrezado, compensando a distância.

A composição sugeria tapetes e barras e existia uma preocupação em acompanhar as formas existentes, como por exemplo, de uma escada (ALCÂNTARA, 2001).

No século XVIII, o Marquês de Pombal, Primeiro Ministro de D. João VI, implantou um programa de industrialização manufatureira em Portugal.

Criou-se a fábrica de Loiça do Rato, que simplificava os padrões de azulejos existentes.

Os produtos eram feitos em série por processos artesanais, o que aumentou a produção, tornando o preço do azulejo mais acessível a um público maior (ALCÂNTARA, 1997).

Segundo Simões (1965), o século XVIII caracteriza-se por ter sido um período também de técnicas artesanais, onde se destacaram alguns mestres portugueses de pintura de azulejos.

Foram os chamados ‘artistas pintores’, que utilizaram o azulejo com intenção de fazer obra de arte e geralmente pintavam grandes composições figurativas e assinadas, fixando o gênero de pintura monumental, muito usada também no Brasil.

O autor informa ainda que, o século XVIII, período de grande exportação de produtos portugueses para o Brasil, foi o século no qual o Brasil tornou-se o grande provedor de Portugal.

Este proporcionou à Colônia um grande aumento no seu patrimônio artístico e a presença da azulejaria portuguesa no Brasil foi bem significativa, tanto na quantidade como na qualidade dos exemplares, onde a utilização do azul de cobalto incorporado nos fundos brancos continuou existindo.

“Pode-se dizer, com verdade, que o Reino devolveu ao Brasil em barro esmaltado parte do ouro e das pedras que de lá recebeu e, se o ouro desapareceu há muito dos cofres do estado, ele está representado para sempre nos monumentos, nas talhas, nas imagens, nas alfaias, nos paramentos, nas pratarias e… nos azulejos, que de um e do outro lado do Atlântico, afirma a presença magnânima de D. João V e de sua esplendorosa época!” (SIMÕES, 1965, p.29).

Ainda segundo Simões (1965 e 1980) nesse período o azulejo estava definitivamente ligado à arquitetura, tornando-se indispensável para embelezar templos e solares e eram encomendados tanto no Reino como na Colônia com os mesmos cuidados e exigências.

Painel de azulejos na Igreja da Boa Viagem (1712-48), em Salvador da Bahia, no Brasil
Painel de azulejos na Igreja da Boa Viagem (1712-48), em Salvador da Bahia, no Brasil

O azulejo, que estava tornando-se indispensável como elemento decorativo, encontrava no Brasil outras razões para sua grande aceitação.

A escassez de materiais para acabamento externo das fachadas, juntamente com o clima quente e úmido do litoral brasileiro, que dificultava a conservação e impermeabilização, podem ter levado os construtores desse século a utilizar o azulejo, mais econômico (pela sua durabilidade), para enfeitar e também garantir a boa conservação das fachadas de igrejas e terreno em frente e/ou em volta de igreja..

Surgia assim no Brasil o ‘Azulejo de Fachada’, desconhecido em Portugal.

Simões (1980) informa que, o século XVIII foi o período de fixação e ‘nacionalização’ do azulejo, ou seja, o uso do azulejo na arquitetura foi confirmado como uma tendência normal e tipicamente brasileira.

O azulejo passou a ser usado com representações de temas figurativos e reduzido para a monocromia perdeu qualidade decorativa.

Mas se impôs logo depois pela excelência material dos suportes e pelo maior cuidado na pintura. As ordens religiosas, principalmente os Frades Capuchinhos, foram os que retiveram a maior riqueza artística da época.

Inúmeros são os Conventos, Hospitais e Missões brasileiras que eram ricamente adornados por azulejos portugueses.

Juntamente com a produção dos painéis figurativos pensados e executados para lugares específicos, produziram-se em Portugal os chamados ‘azulejos ornamentais’, produzidos em série, para decorações mais simples e podiam ser comprados por unidades, dúzias ou centenas.

Independentes de lugares predeterminados permitiam várias combinações e com preços mais acessíveis, sendo utilizados em aposentos secundários como corredores, pequenas salas e cozinhas.

Dentro deste tipo de azulejos ornamentais estão os chamados de ‘figura avulsa’, onde cada azulejo contém um motivo independente com desenhos simples e certa ingenuidade, pintados em azul, com temas de flores, aves, animais, figuras humanas ou barcos.

Foram produzidos em Portugal, tornaram-se os azulejos ‘populares’, sempre graciosos, porém, não sendo encontrados muitos exemplares no Brasil.

Outro tipo de azulejo seriado foi o dos painéis de vasos floridos, os chamados ‘azulejos de vasos’, encontrados com maior freqüência no Brasil, quase sempre emoldurados por figuras de sereias, golfinhos, anjinhos ou volutas barrocas (SIMÕES, 1965).

Durante o século XVIII, houve grande variedade de estilos de desenhos e pinturas em azulejos que refletiam as modas e gostos contemporâneos.

Santos Simões em Azulejaria Portuguesa no Brasil dividiu o século XVIII em quatro períodos que se diferenciavam pictoricamente: época dos mestres (1700-1725); época das oficinas anônimas (1725-1755); época pombalina (1755-1780); época D. Maria I (1780-1808).

A mesma divisão cronológica fez Cavalcanti (2002) para mostrar os diversos tipos de desenhos característicos de cada período.

Na segunda metade do século XVIII com o rococó, passa a predominar as dissimetrias e arritmias, com o retorno da polocromia em arranjos de molduras concheadas em tonalidades amarelas, verdes, roxas e azuis.

Durante o século XIX, vários acontecimentos e fatos históricos perturbaram as relações do Brasil com Portugal.

Em 1808, chegou ao Brasil a corte de D. João VI e aconteceu a abertura dos portos do Brasil ao comércio internacional.

Portugal encontrava-se abatido pelas guerras e desfalcado de recursos, deixou de ser o centro abastecedor e com a facilidade de comércio, o Brasil começou a importar azulejos de outros países como Holanda, Inglaterra, França, Bélgica, Alemanha e Espanha.

Contudo, os produtos desses países apresentavam-se diferentes dos de Portugal. Segundo Cavalcanti (2002), os azulejos desses países apresentavam características de industrialização como pasta fina, dimensões pequenas e padronizadas, vidrado liso, espessura do biscoito reduzida e também decoração estampada ou decalcada.

Os construtores brasileiros recorreram ao azulejo para revestimento e proteção das fachadas das edificações. Na verdade, existe certa polêmica entre os estudiosos em relação a essa criação ou inovação do uso do azulejo em fachadas.

Santos Simões, historiador português, afirma categoricamente que essa é uma invenção brasileira, enquanto que os especialistas brasileiros Dora Alcântara e Mário Barata atribuem tal invenção a Portugal.

Além de embelezar as fachadas, o azulejo tinha a função utilitária de proteção contra a umidade, típica do nosso clima tropical, agravada nas cidades litorâneas ou cidades situadas às margens de rios, devido à salinidade.

O azulejo impermeabilizava e isolava os exteriores, garantindo melhor e mais longa conservação. As cidades que mais receberam fachadas azulejadas foram as que apresentavam tais características geográficas como Belém, São Luiz, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Recife (CAVALCANTI, 2002).

A autora revela uma informação que pode confirmar o início da aplicação do azulejo na arquitetura civil.

A primeira notícia da chegada de um carregamento de azulejos foi publicada no Diário de Pernambuco em 1837. A notícia informa que 1.400 azulejos foram trazidos num navio espanhol, vindo do Rio de Janeiro.

Não informa, porém, a origem da embarcação, provavelmente, de Portugal, de onde vieram todos os primeiros azulejos.

Outras notícias publicadas nos anos seguintes 1838, 1839 e 1840, já especificam que navios vindos de Lisboa traziam caixas de azulejos de Portugal.

Em relação ao uso do azulejo no revestimento de fachada, Alcântara (2001) continua a questionar se é uma criação brasileira. Na sua opinião, essa prática estabeleceu-se simultaneamente no Brasil e em Portugal.

Existe documentação e exemplos de revestimentos azulejares dos terminais dos campanários desde o século XVI nos dois países; em Portugal existem também, desde o mesmo século, bancos de jardins revestidos de azulejos e fachadas voltadas para os jardins igualmente revestidas com azulejos.

A autora nota que, em Portugal, a partir da Revolução Liberal, e com ascensão da classe burguesa, o azulejo passa a ser escolhido por este grupo social que não possuía gosto estético refinado de acordo com os padrões da época.

Os azulejos semi-industrializados atendiam às necessidades dessa classe emergente. Como os sobrados eram geminados, só havia uma fachada aparente, que era a frontal onde, naturalmente, os azulejos eram colocados.

No Brasil, o fenômeno foi semelhante. O país passou a Império, surgindo a necessidade de enriquecer sua singela arquitetura.

Os portugueses que moraram no Brasil e retornaram a Portugal construíram suas “casas brasileiras” levando o novo gosto ou moda – fachadas revestidas de azulejos-, observa Simões (1965), verificando e defendendo sua idéia de que assim, se proliferou em Portugal o uso de azulejos em fachadas.

Logo que se restabeleceu a ordem em Portugal e reataram-se as relações comerciais com o Brasil Imperial, os azulejos portugueses retomaram a posição perdida e em pouco tempo superaram os azulejos estrangeiros.

Entre 1860 e 1918, as fábricas de azulejos de Portugal voltaram a abastecer o Brasil.

O processo de fabricação utilizado na época era o de estampilha semi-industrial, o mais comum.

Consistia na aplicação de um molde, geralmente de metal, com os desenhos recortados, e aplicados sobre a peça cerâmica e, finalmente, o artesão coloria com um pincel o espaço aberto.

Para os padrões em policromia, fazia-se um molde para cada cor. Nessa elaboração muitas peças saíam com defeito, mas não deixavam de ser utilizadas.

Na técnica usada anteriormente à estampilha, o motivo era desenhado em um cartão e perfurado, esse cartão era colocado sobre o azulejo e passava-se um pó de carvão muito fino pelos orifícios marcando no azulejo o contorno do desenho.

O azulejador, então, com o pincel delineava esses contornos, completando a figura. A estampilha permitia a reprodução de desenhos menores e com mais detalhes (ALCANTARA, 2001).

A produção de azulejos pintados e vidrados não teve êxito no Brasil durante o século XIX.

A primeira fábrica brasileira foi instalada em Niterói, no Rio de Janeiro, por volta de 1861 e se chamou Survillo & Cia. Durante o século XIX houve, no Brasil, grande uso não só de azulejos portugueses como também os de outras procedências como os franceses.

Nesses dois países a produção de azulejos era feita com algumas particularidades ou diferenças.

Cavalcanti (2002) documentou as diferenças entre azulejos portugueses e franceses encontrados em Pernambuco no século XIX.

Quanto à dimensão, os portugueses mediam 13×13 e 14×14 centímetros e os franceses mediam 10,5×10,5 e 11,5×11,5 centímetros.

Na modalidade azul e branco, os portugueses tinham o desenho azul sobre fundo branco mais nítido que os franceses (que apresentavam um esfumaçado azul em torno do desenho).

No azulejo português era comum o desdobramento do mesmo em módulos de 2×2 e 4×4, enquanto que o azulejo francês tinha o padrão na própria peça.

A autora destaca também que o revestimento azulejar português era contornado por frisos (metade do azulejo) de um mesmo padrão ou padrão parecido, formando vãos e marcando a barra inferior.

O azulejar do tipo francês não utilizava frisos, raramente tinham cercadura que eram azulejos nas mesmas dimensões dos azulejos principais, mas com um padrão diferente.

Ainda em relação aos padrões de azulejos franceses, Alcântara (2001) faz referência a uma fábrica de Dèsvres, no norte da França, especializada em louça, que depois passou a produzir azulejos também, era comum as fábricas terem essa dupla função.

A matéria prima para essa fábrica era obtida no Rio do Prata e com o interesse das cidades do litoral sul-americano pelo azulejo, a fábrica começou a produzi-lo para ser usado como lastro de navio.

Nas proximidades do término da viagem os azulejos iam sendo vendidos.

A autora revela uma técnica de decoração francesa onde o desenho era gravado em chapa metálica, transferido para um papel por ação química, depois colocado sobre a base estanífera do azulejo e levado ao forno, onde o papel era queimado ou soltava, deixando o desenho impresso.

Com essa técnica, os motivos podiam ser muito mais elaborados e as imagens apresentavam pigmentação característica, pontinhos típicos de algumas impressões.

Retomando as fachadas de azulejos, na opinião de Alcântara (2001) São Luiz, capital do Maranhão, possui o conjunto de fachadas azulejadas dos mais interessantes, embora Belém possua um conjunto maior, apesar de muitas perdas.

Com o ciclo da borracha na Amazônia, tanto São Luiz como Belém foram capitais do Estado do Grão Pará.

São Luiz enriqueceu numa primeira fase. No final do século XIX e no século XX, a economia maranhense entra em declínio, começando o ciclo da borracha na Amazônia. Belém passa por uma fase de enriquecimento, documentada, inclusive, pelo azulejo.

Nessa fase, enriquece também Manaus, como mostram seus sobradões azulejados.

Em relação à disposição dos azulejos, a autora observa, em várias cidades brasileiras, uma composição fantasiosa com vários padrões na mesma fachada.

Porém, em São Luiz, o padrão é único em cada revestimento.

Nesta cidade, é comum encontrar as partes inferiores das paredes pintadas em cores mais escuras, como uma forma de proteger a parede dos respingos da chuva, nas ruas sem calçamento, hábito que permaneceu mesmo quando desnecessário.

Foram registrados, em São Luiz, exemplos da parte inferior das fachadas revestidas com azulejos de padrões diferentes, ou com o mesmo padrão, porém, com outra disposição.

A autora informa, ainda, que várias outras cidades brasileiras receberam azulejamento em fachadas.

No Rio de Janeiro restam poucos vestígios de fachadas azulejadas, talvez, devido às transformações muito rápidas. Salvador também teve um conjunto de fachadas azulejadas, mas o que resta hoje é pouco expressivo.

Recife, Olinda, Paranaguá, Porto Alegre e até cidades no interior como Sobral, no Ceará, e as cidades do Vale do Jaguaribe possuem fachadas azulejadas.

Foi constatada a presença do azulejo, às vezes de um mesmo padrão, em cidades distantes, dentro da grande extensão territorial brasileira.

O uso de azulejo de fachadas é grande no Brasil, porém, em Portugal a concentração desse uso é bem maior. É lamentável que estejamos perdendo muito desse nosso patrimônio cultural.

Os conjuntos de fachadas azulejadas, no Brasil, não têm sido preservados como merecem. Estão desaparecendo.

Os azulejos, além de material decorativo são documentos desse longo processo de consolidação de nossa cultura.

O Primeiro Código Sanitário de 1894 faz referência a cozinhas e banheiros contendo barras impermeáveis de 1.50m de altura, o texto sugere que as casas deveriam ser secas, ventiladas, iluminadas e fáceis de serem limpas (LEMOS, 1999).

Alcântara (1980), identificou problemas na escala arquitetônica nos azulejamentos externos de fachadas.

Com a tendência ao crescimento vertical dos imóveis, o azulejo perdia a função decorativa, pois o motivo que deveria ser pequeno desaparecia quando muito afastado do observador, o que demonstrava falta de cuidado com a escala arquitetônica na aplicação do azulejo.

Com a facilidade para cópia de modelos e com a importação de matrizes estrangeiras, o azulejo perdeu a sua característica de exclusividade.

Ao mesmo tempo, essa perda de atributos resulta no desaparecimento gradativo do azulejamento externo com finalidade decorativa.

O uso do azulejo restringia-se, então, às áreas internas de serviço, como cozinhas e banheiros, com função exclusivamente utilitária.

A perda dos atributos tradicionais da azulejaria portuguesa, tais como permanente modernidade, marcante individualidade e adequação à escala arquitetônica coincidia com o desaparecimento gradual do azulejamento de fachadas com finalidade decorativa, tanto em Portugal como no Brasil, conclui Alcântara (1980).

História do Azulejo na Cultura Brasileira

Azulejos na rua Portugal em São Luís do Maranhão

A rua Portugal é a mais azulejada do Brasil

Ali está a Rua Portugal em São Luís do Maranhão, que possui o maior número de azulejos em fachadas de casarões históricos tanto do Brasil quanto da América Latina.

Além disso, a Casa do Maranhão é um ótimo lugar para conhecer de perto as manifestações culturais, histórias e aspectos geográficos do Estado.

História por Trás do Azulejo Português

O azulejo português é uma das marcas que representa a cultura de Portugal.

Museu Nacional do Azulejo • Lisboa • Portugal

Criou raízes na Península Ibérica a partir dos finais do século XV.

Para falarmos da história do azulejo português temos de remeter-nos para a sua origem. A influência da decoração ornamental muçulmana teve uma forte incidência na cultura do azulejo português.

Em termos práticos, o azulejo português designa-se por uma placa de cerâmica quadrada, de pouca espessura, geralmente nas medidas 15×15 cm ou em menores formatos.

Este artefacto tem uma das faces decoradas e vidradas, resultado da cozedura de um revestimento geralmente dominado como esmalte, tornando-se impermeável e brilhante. A sua utilização é também comum em países como Espanha, Itália, Holanda, Turquia, Irão ou Marrocos.

Painel de azulejos da Casa de Ferreira das Tabuletas (1864), em Lisboa
Painel de azulejos da Casa de Ferreira das Tabuletas (1864), em Lisboa

 

“Morte de São Francisco de Assis” (1929), painel localizado na Capela das Almas, no Porto
“Morte de São Francisco de Assis” (1929), painel localizado na Capela das Almas, no Porto

História e origem do azulejo português

Com inícios da sua propagação no século XVI, pela Península Ibérica, o desenvolvimento do azulejo estava a cargo das cerâmicas de Sevilha.

Chegou a Portugal no ano de 1498, pelo Rei D. Manuel I, numa das suas viagens a Espanha.

Portugal aprendeu o método de fabrico e de pintura, e o azulejo português tornou-se das marcas de expressão mais fortes da sua cultura.

O brilho, a exuberância e a fantasia dos motivos ornamentais chegaram do Oriente.

Já da China, chegou o azul da porcelana que, na segunda metade do século XVII, deu ao azulejo composições sem caráter repetitivo, cheias de dinamismos e formas em movimento.

Nos finais do século XVII, Portugal importou da Holanda grandes quantidades de azulejo, absorvendo a pureza e o refinamento dos materiais, assim como, a ideia de especialização de pintores.

No reinado de D. João V (1706-1750), os azulejos sofreram a influência da Talha, utilizando os mesmos motivos numa tendência para que as superfícies inteiras de parede fossem revestidas, criando um impacto de característica barroca.

Durante esta época, o azulejo português é largamente utilizado nas igrejas, palácios e casas pertencentes à burguesia, no interior e no exterior, nos seus jardins. Era considerado meio de distinção social.

As gravuras estrangeiras que circulavam no país inspiraram as composições dos painéis figurativos.

Após o terramoto de 1755, a frágil situação económica e a necessidade de reconstruir Lisboa, levou a uma conceção utilitária e prática do azulejo, usado como complemento de fatores estéticos.

Com o regresso do Brasil, o azulejo português começou a ser utilizado como revestimento nas fachadas dos edifícios, dada a dualidade deste material.

Fachada de um prédio da Rua Garrett, em Portalegre.
Fachada de um prédio da Rua Garrett, em Portalegre.

Criação artística em Portugal

Apesar da comum utilização também noutros países, em Portugal, o azulejo assume um papel especial na criação artística, quer pela longevidade do seu uso, quer pelo modo de aplicação através dos grandes revestimentos interiores e exteriores, quer pelo modo como foi entendido ao longo dos séculos, não se resumindo apenas à arte decorativa.

Os azulejos figurativos eram concebidos em sintonia com o espaço, sagrado ou civil.

O azulejo português é ator principal de verdadeiros repertórios de gravuras. Sendo protagonista de cenas históricas, religiosas, de caça, de guerras, entre outros, aplicados às paredes, pavimentos e tetos.

Os primeiros artistas de renome

O percursor que assumiu a pintura do azulejo português foi o espanhol Gabriel del Barco, ativo em Portugal nos finais do século XVII.

Já no século XVIII assistiu-se a um crescente de artistas do aclamado Ciclo dos Mestres, por um período áureo da azulejaria portuguesa. Nomes de referência reportam-nos para Nicolau de Freitas, Teotónio dos Santos e Valentim de Almeida.

Os azulejos portugueses são reconhecidos e apreciados a nível mundial.
Os azulejos portugueses são reconhecidos e apreciados a nível mundial.

A presença do azulejo português até à atualidade

O azulejo conta com 500 anos de produção nacional. Na segunda metade do século XIX alcança mais visibilidade.

O azulejo foi utilizado para cobrir milhares de fachadas, sendo produzido por fábricas de Lisboa e das cidades do Porto e Vila Nova de Gaia, como Massarelos e a Fábrica de Cerâmica das Devesas.

No Norte, os relevos pronunciados, o volume, o contraste de luz e sombra são características presentes. Por Lisboa, a preferência ficou-se pelos padrões lisos de memória antiga e uma ostensiva aplicação exterior nas fachadas.

No Porto, no século XX, o pintor Júlio Resende construiu desde 1958, composições figurativas em azulejo e placas cerâmicas, atingindo o expoente do seu trabalho com Ribeira Negra, em 1985.

Nesta época surgem os artistas Rafael Bordalo Pinheiro e Jorge Barradas, impulsionadores da renovação no domínio da cerâmica e do azulejo.

Ainda em meados do século, Maria Keil realiza um notável trabalho para as estações iniciais do metro de Lisboa, juntando-se a Júlio Resende (“Ribeira Negra” – 1984), Júlio Pomar, Sã Nogueira, Carlos Botelho, João Abel Manta, Eduardo Nery, entre outros, como grandes referências da história e cultura do azulejo português.

Alguns locais onde pode observar painéis de azulejo português

Estação de São Bento, Porto;
Igreja de Santo Ildefonso, Porto;
Igreja dos Congregados, Porto;
Capela das Almas, Porto;
Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, Lamego;
Convento de Santa Cruz do Buçaco, Buçaco;
Convento de Cristo, Tomar;
Igreja de São Quintino, Sobral de Monte Agraço;
Quinta da Bacalhoa, Lisboa;
Capela de São Roque, Lisboa;
Convento da Graça, Lisboa;
Convento de São Vicente de Fora, Lisboa;
Palácio dos Marqueses de Fronteira, Lisboa;
Palácio Nacional de Queluz, Lisboa;
Casa de Ferreira das Tabuletas, Lisboa;
Palácio da Mitra, Azeitão.

Viaje pela História do azulejo português

É possível conhecer toda a história do azulejo português, acompanhando a sua evolução, no Museu Nacional do Azulejo, criado em 1980.

Para além do repertório nacional, exalta a interseção com as expressões multiculturais e o seu desenvolvimento.

O azulejo português é uma das características que coloca Portugal em destaque nos roteiros de qualquer viajante. Na verdade, Portugal é considerado a capital mundial do azulejo.

Guia de Turismo do Nordeste

História da introdução dos azulejos portugueses no Brasil

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