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A história das religiões afro-brasileiras começa com o encontro forçado entre os povos africanos trazidos pela escravidão e as culturas indígenas e europeias do Brasil. Dessa convivência nasceram tradições distintas, como o candomblé e a umbanda, ligadas por raízes comuns e por uma longa trajetória de resistência.
- Principais religiões: candomblé, umbanda, tambor de mina (MA), xangô (PE) e batuque (RS).
- Candomblé: culto aos orixás, voduns e inquices, com raízes iorubás, jejes e bantas; consolidou-se na Bahia no século XIX.
- Umbanda: religião brasileira surgida no Rio de Janeiro no início do século XX, com influências africanas, indígenas, católicas e espíritas.
- Adeptos: cerca de 1,8 milhão de pessoas (1% da população) se declararam de umbanda ou candomblé no Censo 2022, o triplo de 2010.
- Datas: 15 de novembro (Dia Nacional da Umbanda) e 21 de janeiro (Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa).

Vídeo sobre a história das religiões afro-brasileiras

Religiões afro-brasileiras47:35

Religiões afro-brasileiras - Documentário09:39

História, mitos e verdades sobre a religião Umbanda12:03

7 DIFERENÇAS ENTRE UMBANDA E CANDOMBLÉ06:27
O que são as religiões afro-brasileiras
Em primeiro lugar, as religiões afro-brasileiras são tradições de matriz africana que se formaram no Brasil a partir do período colonial. Embora tenham raízes comuns, cada uma tem doutrina, rituais e organização próprios.
Variedade regional
Além disso, as manifestações variam conforme a região e a história local:
- Nordeste: candomblé baiano, tambor de mina (Maranhão) e xangô (Pernambuco);
- Sudeste: sobretudo candomblé e umbanda, muito presentes no Rio de Janeiro e em São Paulo;
- Sul: o batuque gaúcho. Aliás, o Rio Grande do Sul tem a maior proporção de adeptos do país, com 3,2% da população no Censo 2022.
Dessa forma, essa diversidade mostra tanto a permanência das culturas africanas quanto sua adaptação ao contexto brasileiro.
Além disso, as religiões afro-brasileiras fazem parte de uma família maior, ligada à diáspora africana nas Américas. Entre elas, estão o vodu haitiano, a santería cubana, o obeah e a kumina da Jamaica e o winti do Suriname.

Candomblé: origem e crenças
O candomblé resulta da preservação e da reelaboração de cultos tradicionais da África Ocidental e Central, trazidos ao Brasil entre os séculos XVI e XIX pelo tráfico de pessoas escravizadas. Trata-se, portanto, de um sistema religioso complexo, que reúne crenças, rituais, música, dança, idioma e vida comunitária. Para saber mais, veja o nosso post sobre o candomblé, sua origem e história na Bahia.
O Ser Supremo e as divindades
No candomblé, acredita-se em um Ser Supremo, cujo nome varia conforme a nação: Olorum (ou Olodumare), nas tradições iorubás; Mawu ou Avievodun, entre os jejes; e Nzambi, nas vertentes bantas. No entanto, esse Ser Supremo não é cultuado diretamente. Em vez disso, a ligação entre o divino e o mundo humano acontece por meio das divindades:
- Orixás, nas nações de origem iorubá, como ketu e nagô;
- Voduns, nas tradições jejes, de origem fon;
- Inquices, nas vertentes bantas, como angola e congo.
Por sua vez, os orixás têm personalidade própria e estão ligados a elementos da natureza, como rios, mares, ventos e florestas, e a aspectos da vida, como justiça, maternidade e trabalho. Embora a África Ocidental reconheça centenas de orixás, o candomblé brasileiro cultua cerca de 16 divindades principais, conforme a tradição de cada terreiro.
Repressão e sincretismo
De fato, durante a escravidão, as autoridades coloniais e a Igreja Católica classificavam as práticas africanas como feitiçaria. Como resultado, houve perseguições, prisões e destruição de terreiros.
Para proteger suas divindades, muitos fiéis recorreram ao sincretismo religioso, associando os orixás a santos católicos. Por exemplo:
- Iemanjá a Nossa Senhora da Conceição;
- Iansã a Santa Bárbara;
- Oxóssi a São Jorge, na Bahia, e a São Sebastião, no Rio de Janeiro;
- Xangô a São Jerônimo ou a São João, conforme a região.
Assim, o sincretismo funcionou como estratégia de resistência. Hoje, porém, muitos terreiros defendem o fim dessa associação, para afirmar a identidade africana do culto.
Rituais, língua e música
Em geral, as cerimônias acontecem nos terreiros ou casas de santo, onde se realizam iniciações, festas públicas para os orixás e atendimentos à comunidade. No entanto, parte dos rituais é reservada aos iniciados e pode incluir a oferenda ritual de animais, entendida como troca de axé (energia vital) com as divindades.
Além disso, as cerimônias usam línguas africanas litúrgicas, como o iorubá ritual. Os atabaques têm papel central: cada toque está ligado a um orixá. Saiba mais sobre o ritmo do candomblé e a invocação dos orixás.

Candomblé e cultura brasileira
Por séculos, os terreiros preservaram línguas, memórias, culinária, música e formas de organização comunitária. Por isso, elementos do candomblé, como os ritmos, a culinária ritual e as festas de Iemanjá, influenciam até hoje a música, a literatura e as artes no Brasil.
Enquanto antes os terreiros eram frequentados quase só por pessoas negras, hoje o candomblé também reúne fiéis de diferentes origens. Ainda assim, a religião continua central para a afirmação da identidade negra.
Umbanda: origem e princípios
Já a umbanda é uma religião brasileira que se consolidou no início do século XX, no Rio de Janeiro. Assim, ela combina elementos de tradições africanas, do catolicismo, do espiritismo kardecista e de tradições indígenas.
A origem da umbanda
Segundo a tradição umbandista, a religião nasceu em 15 de novembro de 1908, em Niterói (RJ). Nessa data, o médium Zélio Fernandino de Moraes teria recebido a entidade Caboclo das Sete Encruzilhadas, que anunciou o novo culto. Por isso, o 15 de novembro é o Dia Nacional da Umbanda, instituído por lei federal em 2012.
Nas décadas seguintes, Zélio e outros médiuns fundaram tendas e organizaram rituais e princípios que diferenciaram a umbanda do candomblé. Em 1941, por exemplo, aconteceu no Rio de Janeiro o Primeiro Congresso de Espiritismo de Umbanda.
Influências
- Tradições africanas: sobretudo a cabula, de origem banta, e o candomblé, que inspiram o uso de atabaques e a incorporação.
- Catolicismo: responsável pela associação entre orixás e santos.
- Espiritismo kardecista: traz as ideias de reencarnação, evolução espiritual e comunicação com os espíritos.
- Tradições indígenas: presentes nos caboclos, no uso de ervas e na defumação.
Princípios da umbanda
Segundo as federações umbandistas, a religião acredita em um Deus único e criador, chamado Olorum ou Zambi. Além disso, a umbanda tem como princípios:
- a reencarnação, como caminho de aprendizado e evolução;
- a lei de causa e efeito (carma), em que as ações influenciam a trajetória espiritual;
- a mediunidade, entendida como instrumento de caridade;
- e, sobretudo, a caridade, eixo ético central da religião.

Guias e entidades
Durante os rituais, os médiuns da umbanda incorporam guias, entidades que orientam e aconselham os consulentes. Entre as principais linhas, estão:
- Caboclos: espíritos ligados aos povos indígenas, à natureza e à força;
- Pretos-velhos: espíritos de antigos escravizados, símbolo de humildade e sabedoria;
- Erês ou crianças: ligados à alegria e à pureza;
- Exus e pombagiras: guardiões ligados à proteção, aos caminhos e às questões afetivas.
Ao contrário do que diz o preconceito, essas entidades não são “demônios”. Para os umbandistas, elas são espíritos em evolução, dedicados ao trabalho de ajuda.
As giras
Em geral, os rituais acontecem em terreiros, centros ou tendas, nas chamadas giras. Nelas, os pontos (cânticos), por exemplo, são cantados em português, ao som de atabaques. Além disso, há defumação com ervas, velas, imagens e pontos riscados. Em geral, as giras são abertas ao público e voltadas ao atendimento espiritual.

Diferenças entre umbanda e candomblé
| Candomblé | Umbanda | |
|---|---|---|
| Origem | Cultos africanos reelaborados no Brasil; consolidado na Bahia no século XIX | Religião brasileira do início do século XX, no Rio de Janeiro |
| Culto | Orixás, voduns e inquices | Guias espirituais (caboclos, pretos-velhos, erês, exus) e orixás |
| Língua | Línguas africanas litúrgicas | Português |
| Rituais | Iniciação longa, obrigações e festas públicas | Giras abertas ao público, com incorporação e atendimento |
| Organização | Hierarquia rígida, liderada por ialorixá ou babalorixá | Mais flexível, liderada por dirigentes, pais ou mães de santo |
Em resumo, ambas compartilham raízes africanas. Enquanto a umbanda é mais sincrética e voltada à comunicação com os espíritos, o candomblé preserva com mais rigor as tradições e liturgias africanas.

Perseguição, resistência e reconhecimento
A repressão policial
Desde o período colonial até boa parte do século XX, as religiões afro-brasileiras foram perseguidas. No período republicano, por exemplo, o Código Penal de 1890 punia o “curandeirismo” e a “prática de magia”. Como resultado, terreiros eram fechados, objetos sagrados eram apreendidos, e pais e mães de santo eram presos.
Na Bahia, os terreiros precisaram até de licença policial para funcionar, uma exigência que só caiu em 1976. Por isso, muitos grupos se declararam “espíritas” ou de “mesa branca”, aproximando-se do espiritismo kardecista, que era mais aceito socialmente.
A diversidade interna da umbanda
Como consequência dessa repressão, muitos grupos de matriz africana passaram a se chamar umbandistas para escapar da perseguição. Assim, a umbanda ganhou grande diversidade interna, com várias linhas e vertentes, algumas mais próximas do espiritismo e outras do candomblé.

Reconhecimento e patrimônio
Nas últimas décadas, porém, houve avanços importantes:
- em 1984, o Terreiro da Casa Branca, em Salvador, tornou-se o primeiro terreiro tombado pelo IPHAN;
- a Constituição de 1988 garantiu a liberdade de culto;
- a Lei 10.639/2003 tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas;
- por fim, a Lei 11.635/2007 criou o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa (21 de janeiro), em memória de Mãe Gilda, ialorixá de Salvador.

As religiões afro-brasileiras hoje
No Censo 2022, cerca de 1,8 milhão de pessoas, ou 1% da população, se declararam de umbanda ou candomblé. Em 2010, eram cerca de 589 mil. Ou seja, o número triplicou em 12 anos. Além disso, muitas pessoas frequentam terreiros sem se declarar adeptas.
Ainda assim, essas religiões continuam a enfrentar desafios:
- intolerância e racismo religioso, com ataques a terreiros e a fiéis;
- desinformação sobre seus princípios e rituais;
- continuidade das tradições orais, transmitidas de geração em geração;
- e, por fim, o uso de símbolos sagrados sem respeito ao seu sentido religioso.
Por outro lado, cresce a valorização dessas tradições, sobretudo entre jovens negros, assim como sua presença na internet, nas universidades e no diálogo inter-religioso.

Em suma, as religiões afro-brasileiras nasceram da violência da escravidão, mas se afirmaram como expressões de resistência, criatividade e fé. Por isso, conhecer sua história é fundamental para combater o racismo religioso e valorizar a diversidade do Brasil.

Perguntas frequentes sobre a história das religiões afro-brasileiras
Quais são as religiões afro-brasileiras?
Sem dúvida, as mais conhecidas são o candomblé e a umbanda. Além delas, há o tambor de mina, o xangô pernambucano, o batuque gaúcho e o omolokô.
Qual é a diferença entre candomblé e umbanda?
Em primeiro lugar, o candomblé cultua os orixás, voduns e inquices, com rituais em línguas africanas. Já a umbanda é uma religião brasileira do século XX, com guias espirituais e rituais em português.
Quando surgiu a umbanda?
Segundo a tradição, em 15 de novembro de 1908, em Niterói (RJ), com o médium Zélio Fernandino de Moraes.
Por isso, essa é a data do Dia Nacional da Umbanda.
Quantas pessoas seguem religiões afro-brasileiras?
Segundo o Censo 2022, cerca de 1,8 milhão de pessoas se declararam de umbanda ou candomblé, ou seja, 1% da população.
O que é sincretismo religioso?
Em outras palavras, é a associação entre orixás e santos católicos, como Iemanjá e Nossa Senhora da Conceição.
Assim, durante a escravidão, o sincretismo ajudou a proteger os cultos africanos.
Quando é o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa?
Em 21 de janeiro, data criada em 2007 pela Lei 11.635 em memória de Mãe Gilda, ialorixá de Salvador.
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