Defesas do Porto da Barra – Fortes de Santa Maria e de São Diogo

O destaque das fortificações na paisagem da cidade de Salvador certamente representa a imposição da necessidade tática e estratégica do seu posicionamento em local elevado, com visibilidade privilegiada para as áreas circunvizinhas.

Mas não se pode negar ao engenheiro militar que as projetava e construía a sensibilidade estética que assimilava da cultura do seu tempo e dos textos dos mais destacados teóricos da arquitetura do Renascimento e do Barroco.

Salvador nasceu como cidade-forte ou, pelo menos, isso era o que pretendia D. João III, de Portugal, e, enquanto foi capital Salvador ou Cabeça do Brasil, houve preocupação constante em defendê-la.

Com a casa saqueada, a Coroa de Portugal tratou de reforçar a proteção da sua capital de além-mar Salvador, aproveitando, inclusive, as defesas deixadas pelos holandeses, que bateram em retirada.

Um dos locais escolhidos para guarnecer Salvador foi o Porto da Barra, onde os batavos tinham desembarcado com toda a facilidade em 1624.

Praia do Porto da Barra e Forte de Santa Maria em Salvador
Praia do Porto da Barra e Forte de Santa Maria em Salvador

É a partir desse momento 1624 que nascem os Forte de Santa Maria e de Forte de São Diogo, que passam, desde então, a ser nominados nas relações das fortalezas de Salvador.

Há uma enorme confusão entre os historiadores sobre a origem dos fortes, porque não se conhece nenhum documento de governador mandando executá-los, nem Ordem Régia autorizando as construções.

O que se sabe é por dedução ou por registro em documentos posteriores. Encontramos referências, também, a uma trincheira de apoio aos dois reduzidos propugnáculos.

"Aenwysinge van de Stadt Salvador, ende de Baya de Todos Los Santtos", Hondius, Henricus
Este raro mapa de Salvador e Baía de Todos os Santos é uma representação muito antiga do ataque holandês e captura da cidade de Salvador em maio de 1624. Salvador, então a capital do Brasil, era um porto estratégico sob o domínio português. ao controle. Os holandeses, determinados a tomar o controle do Brasil, formaram a Companhia das Índias Ocidentais em 1621 e enviaram uma grande expedição ao Brasil. Em 8 de maio de 1624, a frota holandesa sob o comando do almirante Jacob Willekens e do vice-almirante Pieter Heyn chegou a Salvador e atacou a cidade. Os holandeses conseguiram capturar a cidade, embora os portugueses tenham recuperado o controle menos de um ano depois. Este mapa retrata a cidade de Salvador e suas fortificações, com os 26 navios holandeses avançando sobre a cidade. O restante do litoral é escassamente gravado com algumas pequenas cidades, árvores e colinas. O mapa está orientado com o norte para a esquerda e inclui uma planta panorâmica de Salvador, com 16 locais identificados em chave na cartela do título. Uma edição posterior do mapa mostra menos navios atacando a cidade, talvez ilustrando um ataque holandês posterior. A impressão no canto inferior direito credita Henricus Hondius em Haia. Não está claro se este é o conhecido editor de Amsterdã ou o gravador e impressor menos conhecido de Delft que trabalhou durante o mesmo período. “Aenwysinge van de Stadt Salvador, ende de Baya de Todos Los Santtos”, Hondius, Henricus

A lógica induz a situá-la, aproximadamente, no trecho da atual Avenida Sete de Setembro, defronte ao Porto da Barra, uma vez já conhecido, vulgarmente, como Porto dos Holandeses.

Mapa dos Fortes de Salvador da Bahia
Mapa da localização dos Fortes de Salvador da Bahia

Se foi feita crítica implacável à eficiência da Fortaleza da Ponta do Padrão ou de Santo Antônio, não se deverá seguir à risca a opinião de alguns dos críticos dos pequenos fortes, que não foram poucos.

O primeiro pronunciamento contra eles vem de Bernardo Vieira Ravasco, que considera “não serem de utilidade alguma […]”.

Um pouco mais além, o famoso relatório inédito atribuído ao Capitão Engenheiro Antônio Correia Pinto, datado aproximadamente de 1671, dá informações interessantes, inclusive sobre o responsável pela construção, alvo de polêmica entre os historiadores:

“Os Fortes Santa Maria e de São Diogo são de pedra e cal: ambos fundou Diogo Luís de Oliveira, sendo Governador e Capitão Geral deste estado, nos extremos de uma praia que fica na boca da barra; donde os Holandeses, e D. Fradique de Tolledo lançarão a gente, que rendeu, e restaurou esta praça, ambos estão desmantelados […]”.

Isso quer dizer que o autor encontrava nos fortes alguma serventia.

Já o Engenheiro Militar Miguel Pereira da Costa, em 1710, não os considerava grande coisa, principalmente o Forte de São Diogo.

Defesas da Barra da Baía de Todos os Santos
Defesas da Barra da Baía de Todos os Santos

Como declarado, não se pode ter posição radical em relação à serventia desses dois “redutinhos”, se consideradas as escalas e a verdadeira função a que se propunham.

Claro está que Forte Santa Maria e o Forte de São Diogo não somavam nada à defesa da Barra, indefensável pela própria geografia, mas dificultavam o desembarque em um porto muito cômodo.

Observese que Nassau, quando intentou, em 1638, a invasão da cidade, preferiu enfrentar o Forte de São Bartolomeu
da Passagem do que arriscar um desembarque no local protegido pelas pequenas fortificações.

Estamos de acordo que os fortes eram dominados por padrastos vizinhos, mas poderiam funcionar bem como baterias baixas de fortificações maiores que ocupassem as eminências.

T' Neemen van de Suyker Prysen in de Bay de Tode los Santos Anno 1627", Leti, Gregorio
Gravura em cobre ilustrando a frota holandesa capturando o forte na entrada da Baía de Todos os Santos, no nordeste do Brasil. A cena é muito ativa com canhões ondulantes e pequenas figuras correndo para a ação. A grande planta inserida da baía é retratada em um pergaminho acima da cena. Publicado por Gregório Letie. T’ Neemen van de Suyker Prysen in de Bay de Tode los Santos Anno 1627″, Leti, Gregorio

Mesmo no período imperial, ainda foram objeto de preparativos quando a Questão Christie motivou colocar em alerta as defesas da costa brasileira, como conta o relatório do Coronel Beaurepaire Rohan.

Disto se conclui que os especialistas de fortificação daquela época ainda julgavam que os fortes em questão tinham alguma serventia.

O Forte de Santa Maria está apoiado sobre um pequeno promontório rochoso, que limitava o lado esquerdo da enseada existente no local.

A maior capacidade de fogo, pela concepção de desenho escolhida, era para o flanqueamento e cobertura do ancoradouro, demonstrando que sua função tinha um endereço limitado e específico.

Hoje em dia, tem canhoneiras no parapeito, mas, pelo que descreve e desenha Luís dos Santos Vilhena, devia ter parapeito à barbeta, cuja única finalidade era receber mais artilharia e aumentar a varredura de pontaria das peças, tudo isso em detrimento da segurança dos artilheiros.

Ouça-se a palavra do erudito professor de grego e cronista da Cidade de Salvador: “não há muito tempo que se repararam imperfeitissimamente os seus parapeitos, de forma que da cintura para cima fica a guarnição exposta aos tiros do inimigo, sem algum outro recurso mais que retirar-se antes que ele dispare; não tem este capacidade para montar mais de sete até nove peças”.

Pelos seus planos de fogo, o número de sete peças seria de bom tamanho para a artilharia.

Desde o tempo de Vilhena, o Forte de Santa Maria conserva um detalhe não muito comum nas outras fortalezas de Salvador: uma banqueta de tiro para os mosqueteiros que defendiam as cortinas. Teve ponte levadiça de madeira, que foi substituída por uma fixa – inicialmente do mesmo material e, mais tarde, de alvenaria.

Forte de Santa Maria em Salvador - BA
Forte de Santa Maria em Salvador – BA

O historiador João da Silva Campos considera que a forma atual do Fortim de Santa Maria vem dos tempos da administração de D. João de Lencastro, assinalando, inclusive, uma data para a inauguração das reformas: “11 de dezembro de 1694”.

Assim, o forte deve ter participado das restaurações de todos os fortes da barra da Baía de Todos os Santos feitas naquele governo.

Comparando a forma atual com as representações do fim do século XVIII e início do XIX, observa-se que foram feitas algumas modificações na área coberta, que foi ampliada, com redução do plano de fogo das armas leves, mas sem comprometer o desenho geral das cortinas.

O Forte de São Diogo também é considerado obra de D. Diogo Luís de Oliveira pelo documento de 1671. Trata-se de uma fortificação
irregular, construída ao pé da colina onde, uma vez, se assentou o núcleo primitivo da Vila Velha de Pereira Coutinho, com sua tranqueira (cerca defensiva feita de madeira) e torre.

Forte de São Diogo em Salvador BA
Forte de São Diogo em Salvador BA

É de se pensar que, desaparecidas as defesas originais, esta eminência tenha sido dotada de alguma bateria ou defesa, porque, situada em cota mais elevada, poderia ser ocupada pelo inimigo, neutralizando os fortes que estavam mais abaixo.

O fogo do Forte de São Diogo, combinado com o do Forte de Santa Maria, seria bem efetivo na defesa do Porto da Barra.

Nosso minúsculo propugnáculo é de desenho irregular, procurando sua forma adequar-se à morfologia do terreno, com uma parte da cortina arqueada. O parapeito era, e continua sendo, à barbeta, conservando muito do primitivo desenho.

A maior modificação no organismo do edifício deve ter sido feita no acesso principal.

O estudioso Edgar Cerqueira Falcão o fotografou antes de 1942, ainda com a rampa interna de acesso, embora já com uma escada no portão de entrada.

Tudo indica que a maior mutilação da topografia e da rampa interna ocorreu no momento em que foi implantado no local o Cirex, clube recreativo dos oficiais da 6a Região Militar.

A forma menos alterada da fortificação foi documentada fotograficamente por Benjamin Mulock, em meados do século XIX.

Segundo antigas plantas, sob a guarda do Arquivo Militar do Exército, havia um caminho que passava perto do fortinho e, ziguezagueando, ia dar no alto, onde se encontra a Igreja de Santo Antônio.

Defesas do Porto da Barra – Fortes de Santa Maria e de São Diogo – História do Brasil

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