História do Forte de São Marcelo ou Forte do Mar em Salvador

Forte de São Marcelo em Salvador BA
Forte de São Marcelo em Salvador BA

O forte de São Marcelo em Salvador foi construído sobre uma coroa de areia, e por ser o único que tem planta circular. 

A história do Forte de São Marcelo está repleta de episódios no mínimo curiosos. Em 1624, por exemplo, cerca de um ano depois de ter sido construído com o objetivo de proteger Salvador de invasões, o forte foi tomado pelos holandeses que, a partir dele, fizeram violentos ataques à cidade.

Mas cerca de 15 anos depois, foi graças a esse forte que os holandeses foram mantidos à distância, em sua segunda tentativa de invasão.

Alguns cronistas do passado confundiram o antigo Forte do Mar, que era o da Laje, mais perto da terra firme, com o atual Forte de Nossa Senhora do Pópulo e São Marcelo, chamado apenas de Forte de São Marcelo ou, popularmente, Forte do Mar.

Nesse equívoco, arrastaram muitos historiadores modernos.

História do Forte de São Marcelo ou Forte do Mar

O que os documentos mostram, e Luiz Monteiro da Costa em parte comprovou, é que foram dois os Fortes do Mar:

  • O primeiro deles, do início do século XVII, mais vizinho à Ribeira de então, foi construído como um reduto quadrilátero sobre um afloramento rochoso, a famosa “lagem”.
  • O segundo, correspondente ao nosso São Marcelo, foi construído, com partido circular, sobre uma coroa de areia.

Os documentos que Monteiro da Costa utiliza em sua argumentação deixam claro que a fortificação referida como Forte da Laje ou Forte do Mar, na primeira metade do século XVII, era próxima à praia, não podendo corresponder ao atual Forte de São Marcelo.

Convém destacar que, na descrição da refrega entre holandeses e portugueses ocorrida no local em 1624, Aldenburgk relatou que quando aqueles tomaram o então “Forte do Mar”, ainda inacabado e protegido por cestões, encravaram os canhões da bateria e bateram em retirada em virtude da fuzilaria de terra.

Forte de São Marcelo
Forte de São Marcelo

Ora, o alcance útil máximo de um mosquete da época, segundo experto da maior credibilidade, o Marechal Sebastien Vauban, era de 120 a 125 toesas (237,6 m a 247,5 m).

O nosso Forte de São Marcelo dista, em linha de tiro, uns 600 m da parte baixa do Elevador Lacerda, de acordo com o levantamento aerofotogramétrico atual da cidade, o que o colocaria fora da hipótese de ser o sucessor do antigo Forte da “Lajem”.

A iconografia também é muito clara. A imagem mais antiga, que mostra o primeiro Forte do Mar na sua versão de reduto quadrado, no Livro que dá razão do Estado do Brasil, exibe um molhe ligando o forte à terra.

A dimensão desse molhe, mesmo considerando qualquer falha na escala do artista, não poderia ser uma ligação do nosso atual São Marcelo à terra.

Peter Netscher, militar e historiador holandês do século XIX, citado também por Monteiro da Costa, ao relatar a epopéia da invasão diz,
referindo-se ao assalto do Forte do Mar: “O próprio Piet Heyn, seguido do corneteiro de seu navio, foi o primeiro a subir na fortificação inimiga obrigando toda a guarnição a escapar, fosse a vau, fosse a nado”.

Forte de São Marcelo
Forte de São Marcelo

Convenhamos que um bom nadador cobriria os quinhentos e tantos metros de intervalo do atual São Marcelo até a praia da época, mas passar a vau seria totalmente improvável, por mais modificada que tivesse sido a batimetria do nosso porto.

Dentro dessa ótica de observação, relativa à pouca profundidade entre o forte e a terra, há a seguinte informação em legenda de Aldenburgk para ilustração do texto sobre a tomada de Salvador, traduzida por Silva Nigra: “Uma bateria construída de pedra dura, distante da terra, que na maré alta se pode passar por detrás com um barco.

A afirmativa é óbvia e não merece mais comentários.

Há também uma documentação datada de 1668, assinada por Francisco Barreto, Governador-geral de 1657 a 1663, que é um parecer sobre a situação defensiva da Bahia e seu Recôncavo, feito a pedido do Conselho Ultramarino.

Fortaleza do Mar em Salvador
Fortaleza do Mar em Salvador

Em determinada passagem, ele diz claramente: “O Forte São Marcelo fiz eu no meio da Bahia, para que com o Forte Real (Forte São Felipe e Santiago, sucessor do Forte da Laje) e o Forte São Francisco se pudesse defender o ancoradouro dos navios”.

Mais recentemente, quando o Iphan executou obras de restauração e consolidação na Fortaleza de Nossa Senhora do Pópulo e São Marcelo, foram ordenadas cinco sondagens internas com a finalidade de se conhecer o substrato de apoio das fundações.

Os laudos da empresa Concreta demonstram, quando se examinam os perfis de sondagem, que o edifício está sobre um enrocamento artificial, com rochas de diversas proveniências, algumas calcárias.

Depois desse estrato há uma queda de resistência, porque não existe “lagem” nenhuma. Trata-se de uma coroa de areia, como já foi descrito antes e, sendo assim, a defesa ali erguida não poderia ser o Forte da Laje, como quiseram alguns historiadores.

O primeiro forte que foi chamado “do Mar”, construído sobre um afloramento rochoso conhecido pelos antigos como “lagem”, exibia a forma de um quadrilátero não abaluartado, que, na linguagem técnica dos tratadistas, era designado como reduto.

O relatório que serviu de base para o Livro que dá razão do Estado do Brasil, produzido em 1612 por Diogo Moreno, já mostra um mapa da Cidade do Salvador com a fortificação “da laje” ligada à praia através de um molhe.

No exemplar do valioso manuscrito que se encontra na Biblioteca do Porto, um particular interessante: o Forte da Laje foi adicionado em um papel colado em sobreposição ao desenho original, como se fosse uma atualização.

Além do caráter passageiro da fortificação, a iconografia demonstra que ela não tinha capacidade ofensiva na direção frontal, pois as troneiras foram representadas nas laterais, e o molhe tinha continuidade na direção oeste, lado não dotado de artilharia.

Pela data desses registros, pode-se imaginar que o Forte da Laje foi executado entre 1609 e 1612, vale dizer, no governo de Diogo de Menezes.

Como a defesa da Cabeça do Brasil, tanto de terra como de mar, continuava precária, e certamente por admoestação do Capitão Francisco Frias da Mesquita, Engenheiromor, resolveu-se melhorar a proteção do porto na gestão de Mendonça Furtado (1621-1624), mas, como sempre, muito tarde.

A autorização veio por meio da Carta Régia de 3 de agosto de 1622, que, em determinada passagem, diz o seguinte: “[…] e fazendo de novo sobre a lage, que está defronte da cidade, o forte novo e molhe para abrigo dos navios […]”.

Novamente pela mão de Frias da Mesquita, o reduto da laje recebe novo projeto para sair da condição de “fortificação passageira” e adquirir a condição de “permanente”, mesmo sem grandes pretensões defensivas.

Com base na iconografia portuguesa posterior à retomada de Salvador aos batavos, como a conhecidíssima Planta da restituição da Bahia, de 1626, vamos encontrar um novo forte em quadrilátero, mas com uma espécie de contraguarda na face frontal.

Esse detalhe lhe dava uma conformação similar, nessa direção, ao Forte dos Reis Magos, de Natal, também atribuído a Frias da Mesquita.

Na retaguarda, o forte potiguar tem uma proteção à maneira de hornaveque, elemento defensivo que parece não existir no nosso Forte da Laje.

Aliás, a proximidade da Ribeira em relação à retaguarda da fortificação da “laje” torna perfeitamente dispensável tal defesa.

A mesma configuração pode ser observada na gravura do cartógrafo português Benedictus Mealius Lusitanus, que representa a retomada de Salvador, elaborada para ilustrar o relato do Padre Bartolomeu Guerreiro datado de 1625, Jornada dos vassalos da Coroa de Portugal.

A gravura holandesa de 1638, que mostra a Cidade do Salvador na época do fracassado ataque de Nassau, já comentada, aponta solução idêntica para o antigo propugnáculo do mar.

Também o importante levantamento cadastral de Salvador, de 1779, que se encontra no Arquivo Militar do Rio de Janeiro, mostra a mesma configuração.

Existem fortes indícios de que essa planta tenha sido elaborada pelo Sargento-mor José Antônio Caldas.

Quanto ao atual Forte do Mar ou de Nossa Senhora do Pópulo e São Marcelo, nasceu com partido circular e, mesmo com algumas modificações ocorridas no decorrer de sua história, ainda exibe a mesma configuração.

Esse tipo de desenho para fortaleza não é muito comum, porém, não chega a ser inusitado. .

Luiz Monteiro da Costa atribui as plantas do Forte de São Marcelo ao Engenheiro Militar de origem francesa Pedro Garcim (ou Garim), que viveu algum tempo em Salvador, no século XVII.

Já Carlos Ott, outro estudioso da história da cidade, é menos enfático, preferindo atribuir com segurança a esse engenheiro somente a execução inicial da construção, o que se considera mais judicioso.

Na realidade, o fato de um engenheiro ter iniciado a obra não quer dizer, necessariamente, que seja autor do seu projeto.

No caso do Forte de São Marcelo, é mais provável que as “traças” tenham vindo do Reino. Tal hipótese baseia-se no fato de que um forte circular com torreão central mais elevado, constituindo uma bateria alta, já vinha sendo edificado em Lisboa desde o fim do século XVI.

Trata-se do Forte de São Lourenço da “Cabeça Seca”, que, à semelhança do São Marcelo, utilizava-se do apoio de uma coroa na barra do Tejo.

Esse trabalho, com a mesma técnica de enrocamento para reforçar a base, foi iniciado pelo Padre Engenheiro João Vicente Casale, que de Nápoles transferiu-se para a Espanha, em 1588, e depois para Lisboa, com o seu sobrinho Alexandre Massai, vulgo Alexandre Italiano, também Engenheiro Militar.

Quem se ocupou, em seguida, do Forte de São Lourenço, hoje mais conhecido como Forte do Bugio, foi Leonardo Turriano, que deixou a construção na altura do embasamento.

A informação, de 1646, é do seu filho, Frei João Turriano, que, como o pai, foi Engenheiromor do Reino por nomeação de D. João IV.

O exame dos desenhos de Turriano indica que, se Garcim é o autor do projeto do Forte de São Marcelo, o que não parece verossímil, ele se inspirou fielmente em protótipo já existente em Portugal, especialmente na sua versão inicial, com torreão e praça alta.

Vale também chamar a atenção para a data dos desenhos de João Turriano para o Bugio, 1646, anterior à da Carta Régia de 1650, que autorizou o Conde Castelo Melhor a construir o atual Forte do Mar.

Destacamos, entretanto, que o nosso Forte do Mar não é um círculo perfeito (embora alguns cadastros assim o representem), por problemas de construção, mas isso nada muda na sua filiação.

A obra do Forte de Nossa Senhora do Pópulo e São Marcelo esteve muito longe de ser executada com rapidez. Os trabalhos de enrocamento para dar estabilidade às suas fundações foram morosos.

Os engenheiros do século XVIII ainda procuravam melhorar sua condição defensiva e eliminar imperfeições.

A leitura de algumas Cartas Régias, posteriores a 1650, esclarece a procedência do material lítico usado no enrocamento: parte veio do Recôncavo (rochas graníticas), outra parte das vizinhanças (arenitos calcíferos), possivelmente da zona da Preguiça ou de Itapagipe e, ainda, de Portugal (calcário), como lastro de navios.

Essas informações são sugeridas pela documentação e pela amostragem que foi feita na sondagem.

Pode-se supor que o Forte de São Marcelo tivesse no início a feição de uma simples torre, pois a construção começou, como seria lógico, pelo torreão central. Isso é sugerido por uma gravura que se encontra na Biblioteca Nacional de Lisboa, também reproduzida no Ensaio de iconografia de cidades portuguesas do ultramar, que mostra, no porto de Salvador, uma torre cercada de enrocamento.

Outro sinal é a escassa artilharia de nove peças de que dispunha nos anos setenta do século XVII.

Vinte anos tinham transcorrido da autorização para a construção do Forte do Mar e a sua obra ainda estava em andamento quando o Governador-geral Afonso Furtado de Mendonça (1671-1675) pediu um relatório técnico da situação das defesas de Salvador e Recôncavo.

No que diz respeito a essa obra defensiva, reza o documento: “A Fortaleza do Mar N. Senhora do Pópulo, é de cantaria, está por acabar, e na forma da ordem de S.A. se começa a tratar de sua obra, é de muita consideração para a segurança dos navios e não se poderem as Armadas Inimigas chegar facilmente a dar bateria à Cidade […]”.

Entra-se no século XVIII e o nosso forte ainda necessita de ajustes. Naquele tempo, ele ainda exibia o torreão central mais alto com canhoneiras, apresentando um anel externo mais baixo, também com canhoneiras, com maior densidade de artilharia.

Contra essa solução, que o tornava muito semelhante ao Forte do Bugio, no Tejo, insurgia-se o Mestre-de-campo Miguel Pereira da Costa, em relatório datado de 1710: “Lá dentro na Praia desta cidade está o Forte do Mar, distante de terra, mais de um tiro de mosquete, em forma circular; com uma praça alta, mas esta além de ter pouca capacidade incomoda a baixa”.

O judicioso conselho de Miguel Pereira só seria acatado muitos e muitos anos depois.

Em 1758, quando o então Capitão José Antônio Caldas, exímio desenhista, ilustrou o texto do seu livro com cadastros de fortalezas, o Forte de São Marcelo ainda tinha torreão e canhoneiras.

Tais elementos persistem no fim do século XVIII ou início do XIX, o que se observa não somente no perfil da cidade elaborado pelo Capitão José Francisco de Souza, em 1782, como também no de Vilhena, de 1801.

O Brigadeiro José Gonçalves Galeão, coordenador de relatório sobre as fortificações de Salvador datado de 1810, levanta algumas críticas ao torreão elevado, troneiras e casamatas, induzindo a pensar que só depois daquela data ocorreram as transformações que levaram ao desaparecimento da praça alta e à substituição das troneiras por um parapeito à barbeta.

Integrava a equipe de Galeão, encarregada do relatório, um Tenente Engenheiro chamado João Teixeira Leal, que deixou uma coleção de desenhos, de muito boa qualidade, das nossas fortalezas, com numerosas reproduções e cópias, tanto em arquivos de Portugal como do Brasil. Aparentemente, o relatório em questão foi ilustrado por Leal.

Uma dessas ilustrações, que ele assinou na qualidade de Capitão – portanto, após 1810 –, mostra o Forte de São Marcelo mais ou menos como o conhecemos na atualidade.

Um dos momentos de grande movimentação na procura de defender Salvador e outras cidades brasileiras ocorreu após a segunda invasão francesa ao Rio de Janeiro, em 1711.

O Brigadeiro João Massé, que se encontrava no Brasil nessa época, informa que o Forte de São Marcelo ainda não estava acabado, e que havia elaborado especificações para ele, com a finalidade de instruir a abertura de concorrência para as suas obras.

As especificações de Massé previam enrocamento de 20 palmos (4,4 m) além do diâmetro da planta apresentada, com alicerces sobressaindo até dois palmos (0,44 m) sobre a baixa-mar e deixando uma sapata de 3 palmos (0,66 m) subir com a muralha, com um arrasto de 1 palmo sobre 5 (20%).

O relatório com data posterior sobre as fortificações de Salvador, assinado por Massé, pelo Mestre-de-campo Miguel Pereira da Costa e pelo Capitão Gaspar de Abreu, repete, no que se refere à fortificação em causa, as palavras de Miguel Pereira no seu relatório de 17 de junho de 1710.

Hoje, o nosso velho propugnáculo, um dos exemplares mais expressivos das fortificações do Brasil Colônia, sobrevive a duras penas, não obstante algumas melhorias que recebeu.

Necessita, urgentemente, de socalque de suas fundações e enrocamento de proteção para continuar testemunhando a nossa memória. Se não receber esse mínimo de cuidados, o seu anel externo vai ruir e, subseqüentemente, o resto.

Mesmo não tendo participado de nenhuma ação militar na defesa do nosso porto, é um dos cartões-postais mais expressivos de Salvador, um testemunho vivo da nossa história.

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