História do Forte de Santo Antônio da Barra em Salvador

Fortes e faróis em Salvador da Bahia
Forte de Santo Antônio da Barra

Forte de Santo Antônio da Barra em Salvador é, certamente, um dos ex-líbris da Cidade do Salvador.

Todavia, nenhuma das outras fortificações da Cabeça do Brasil sofreu tantas metamorfoses durante os seus mais de quatrocentos anos de existência do que o Forte de Santo Antônio da Barra.

Embora os historiadores normalmente não afirmem com exatidão as suas origens, encontra-se uma notícia muito antiga sobre a primeira construção dessa defesa em um Códice do Arquivo Ultramarino.

Ele transcreve um alvará de 21 de maio de 1598, por meio do qual foi nomeado “bastião” de Brito Correia, comandante do Forte de Santo Antônio, “que está começado na barra daquela Cidade.”

Essa deve ser a versão que sucedeu à torre poligonal de taipa, segundo o Livro Velho do Tombo do Mosteiro de São Bento.

Assim, é aceitável a afirmação do historiador João da Silva Campos de que o primeiro forte, ou seja, a torre octogonal, foi obra do governo de Manoel Teles Barreto (1583-1587).

Como acontecia com as fortificações daquela quadra, é possível que Santo Antônio da Barra tenha nascido em forma de torre, conforme representações de Albernaz.

História do Forte de Santo Antônio da Barra em Salvador

Essas figurações não devem ser aleatórias ou fantasiosas, porque existe escala gráfica nos desenhos. Além do mais, as outras três fortificações representadas – o Reduto de Santo Alberto, o Forte de Monserrat e a Torre de São Tiago de Água de Meninos – podem ser confirmadas pela análise de outras iconografias ou, no caso do Monserrate, porque ainda existe.

Forte de Santo Antônio da Barra - perfil e planta por José António Caldas (1759)
Forte de Santo Antônio da Barra – perfil e planta por José António Caldas (1759)

Pela escala gráfica oferecida, podemos avaliar a dimensão dos eixos do octógono regular representado como de cerca de 120 palmos (aproximadamente 26 metros).

À semelhança do antigo reduto de Santo Alberto, da Torre de Água de Meninos e do Castelo de São Felipe, hoje Nossa Senhora de Monserrate, tinha entrada alta, com escada e ponte levadiça, sugerindo uma solução tipológica da época.

Na qualidade de torre octogonal, a construção primitiva do Forte de Santo Antônio, vista de longe, poderia ser interpretada como se fosse uma torre cilíndrica.

O problema é que, nesse caso específico, as formas utilizadas como decoração de cartografia podem não ser contemporâneas da planta cartográfica e nem de seu autor, Albernaz, correspondendo a situações mais antigas das fortalezas, copiadas de outras estampas.

A desconfiança é justificada por informações contidas no relatório de Diogo Moreno – não só a iconografia, datada de 1609, mas também a seguinte referência na descrição do Fortim de Monserrate: “forte de pedra e cal da mesma traça de S. Antônio […]”.

Como se observa, no desenho de Moreno não há um octógono, mas um hexágono, que realmente se assemelha ao Fortim de Monserrate sem as torres.

A entrada permanece alta e com ponte levadiça, mas as torres de proteção do acesso ao perímetro interno situam-se na parte externa da cortina. Os parapeitos possuem canhoneiras, embora poucas.

A julgar pela artilharia relacionada no Livro que dá razão do Estado do Brasil, de Diogo Moreno, com quatro peças no total, essa segunda versão, mesmo edificada de maneira mais duradoura, em pedra e cal, deveria ser, igualmente, de modestas proporções.

Segundo relação do Engenheiro Militar José Antônio Caldas, o perímetro de cortinas da versão do fim do século XVII tinha, em meados do século XVIII, dezesseis peças de diferentes calibres, compatível com a sua linha de fogo ampliada.

Alguns historiadores, nas suas ilações, querem atribuir algum valor estratégico a esse simpático e fotogênico forte, mas não se pode contagiar pela empolgação, diante da frieza dos fatos e da realidade da situação.

"Aenwysinge van de Stadt Salvador, ende de Baya de Todos Los Santtos", Hondius, Henricus
Rara visão contemporânea do ataque holandês a Salvador This rare map of Salvador and Baia de Todos os Santos (Bay of Saints) is a very early depiction of the Dutch attack and capture of the city of Salvador in May 1624. Salvador, then the capital of Brazil, was a strategic port under Portuguese control. The Dutch, determined to seize control of Brazil, formed the West India Company in 1621 and sent a large expedition to Brazil. On May 8, 1624, the Dutch fleet under the command of Admiral Jacob Willekens and Vice Admiral Pieter Heyn arrived in Salvador and attacked the city. The Dutch succeeded in capturing the city, although the Portuguese regained control less than a year later. This map depicts the city of Salvador and its fortifications, with the 26 Dutch ships advancing on the city. The remainder of the coastline is sparsely engraved with a few small towns, trees, and hills. The map is oriented with north to the left and includes an inset bird’s-eye plan of Salvador, with 16 locations identified in a key in the title cartouche. A later edition of the map shows fewer ships attacking the city, perhaps illustrating a later Dutch attack. The imprint at lower right credits Henricus Hondius in The Hague. It is unclear if this is the well-known Amsterdam publisher or the lesser-known engraver and printer from Delft who worked during the same period.

Desde o início do século XVII, Moreno dizia, em relação a ele, que por aquela parte “entram e saem, cada dia, naus armadas de corsários sem que a artilharia que aqui está lhe faça dano, e ainda que tenha colubrinas [tipo de peça de artilharia] de sessenta quintais, nunca totalmente poderá defender a barra”.

Mais adiante, considera-o como “adorno da barra”, e nisto todos estamos de acordo.

A realidade é que nenhum especialista considerava de grande valor estratégico ou tático a Fortaleza de Santo Antônio da Barra.

Diogo Moreno é mais do que claro quando afirma: “Por muitas vezes se tem advertido a Sua Majestade que os Fortes de Santo Antônio, de Itapagipe e de Água de Meninos […] não são de nenhum efeito, assim por que não defendem nada, como pelo grande risco com que se sustentam por sua fraqueza e má traça […]”.

Também Bernardo Vieira Ravasco, Secretário de Estado e de Guerra, dizia, em seu relatório de 11 de setembro de 1660: “Estes três fortes, por estarem quase juntos, e não serem de utilidade alguma a quem neles assiste […]”.

Mesmo após as reformas substanciais do fim do século XVII, que aumentaram muito a capacidade de fogo do Forte de Santo Antônio da Barra, seu prestígio não cresceu.

O Mestre-de-campo Miguel Pereira da Costa, no início do século XVIII, foi também bastante enfático no seu parecer quanto à ineficiência do forte.

Foto antiga do Forte de Santo Antônio da Barra em Salvador
Foto antiga do Forte de Santo Antônio da Barra em Salvador

É de se notar que, apesar de já apresentar a forma atual, bem mais desenvolvida, a fortificação não merecia crédito, tendo ainda como desvantagem um padrasto, o atual morro do Gavazza.

A opinião sobre a limitação de Santo Antônio da Barra é compartilhada até mesmo por leigos, como Frei Vicente do Salvador, que afirma ser esse forte e o de São Felipe (Monserrate) “mais para terror que para efeito”.

As melhorias do novo projeto não vieram resolver o problema da eficiência estratégica da fortaleza, porque não contribuíam para barrar as invasões da cidade pelo sul.

Continuava uma defesa sem capacidade de hostilizar os inimigos que entravam baía adentro. Do ponto de vista tático, embora o perímetro de fogo tivesse sido aumentado, as condições para a defesa de suas cortinas eram precárias.

Os batavos tomaram essa praça de guerra na invasão de 1624, para não deixar tropas inimigas na sua retaguarda quando desembarcaram no Porto da Barra, mas não investiram em guarnição numerosa para mantê-lo. Isso é fato, porque logo depois o forte foi retomado por Francisco Nunes Marinho, a mando de Matias de Albuquerque.

Aliás, era voz geral entre os estudiosos da defesa da capital que seria uma temeridade repartir as minguadas tropas para guarnecer os ermos propugnáculos da Barra e de Monserrate.

Não podemos, porém, desconhecer o papel desempenhado pela fortificação como vigia da barra da Baía de Todos os Santos, função para a qual tinha posição privilegiada.

Dessa posição, desde os primeiros tempos da Ponta do Padrão, assinalavamse as embarcações que viessem do norte à procura de suas águas.

São vários os documentos falando dos sinais com fogos, que percorriam toda a costa, desde a Casa da Torre de Tatuapara até a Ponta do Padrão, avisando da aproximação de navios, e dos disparos que eram feitos de fortaleza a fortaleza indicando mais de quatro naves que entrassem pela barra.

Essa função valeu à nossa fortaleza a alcunha de Vigia da Barra. O farol nela instalado, ainda no século XVII, para a defesa dos navegantes contra os escolhos e baixios daquela zona do mar, demonstra que, mais do que a sua função bélica, sempre posta em dúvida, poderia ostentar aquelas da segurança da navegação e da vigilância.

Para o exercício dessas funções, foi instalada uma torre-farol de base quadrada, que sobreviveu por muito tempo.

A feição atual da fortaleza é, em grande parte, a que tinha em fins do século XVII, exceção feita à ampliação da área coberta no terrapleno. A torre do farol, de forma cilíndrica, é do século XIX, pois Vilhena ainda a representava quadrada, no fim do século anterior.

Segundo Silva Campos, a torre cilíndrica deve ser fruto de reforma originada da Ordem Imperial de 6 de julho de 1832, quando se instalou um equipamento de iluminação comprado na Inglaterra.

Um novo equipamento europeu seria instalado em 1890 e reformado em 1904. A eletrificação do sistema data de 1937.

Veja Defesas do Porto da Barra – Fortes de Santa Maria e de São Diogo

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